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06

Iniciação pra quê?

Foto do escritor: Alan Abreu
Alan Abreu
8 de ago.
6 min de leitura

Atualizado: 10 de ago.

De verdade: pra quê?

 

Decidi escrever este texto depois de perceber, ao longo dos anos, a quantidade de pedidos de iniciação que recebi de pessoas muito jovens — algumas delas, inclusive, menores de idade, que não iniciamos de forma alguma. Quero deixar claro que não tenho intenção de desencorajar ninguém e concordo que “a barba não faz o profeta”. No entanto, acredito que seja válido refletir sobre a iniciação e seu impacto no indivíduo.

 

Por isso lhes pergunto: iniciação pra quê?

 

Existem várias definições adequadas para abordar a iniciação, já que é um processo profundo e dinâmico. No entanto, aquela que melhor ilustra a ideia que desejo transmitir é a da morte: a iniciação é uma morte.

 

Escolhi essa palavra porque, ao encarar a iniciação como uma morte, somos instigados a refletir e questionar se é isso que realmente buscamos e, se for o caso, se estamos preparados para ela.

 

Nos primeiros anos de escola, aprendemos que os animais, incluindo nós mesmos, “nascem, crescem, reproduzem-se e morrem”. A morte, nesse contexto, ocorre em um único momento, mas poderíamos dizer que, em nossa experiência da vida, não é exatamente assim. Religiões que não veem a morte como o fim frequentemente falam dela como passagem. O próprio inglês utiliza passed away, e pass significa justamente “passar”, “atravessar”.

 

A morte é uma passagem, uma mudança de estado.

 

Aceitando essa imagem, podemos dizer que morremos diversas vezes ao longo da vida. Ao crescermos, morremos para nossa vida infantil; quando começamos a explorar nossa sexualidade, morremos para uma forma anterior de nos perceber e de nos relacionar com o mundo. Uma perda pode matar aquilo que acreditávamos que seria nosso futuro. Uma grande descoberta pode destruir convicções que pareciam inabaláveis. Um encontro, uma separação, uma mudança de cidade, uma crise, um fracasso ou uma conquista podem alterar de tal maneira aquilo que somos que já não conseguimos retornar completamente à pessoa que existia antes.

 

Essas experiências deixam marcas e nos transformam, tenhamos ou não plena consciência disso.

 

Nesse sentido, a própria vida está repleta de experiências iniciáticas: acontecimentos que nos conduzem de um estado a outro e exigem que alguma coisa morra para que outra possa surgir.

 

Mas é importante fazer uma distinção.

 

Nem toda transformação é uma iniciação no mesmo sentido em que falamos de uma iniciação tradicional.

 

A vida pode nos transformar brutalmente sem pedir licença, mas uma iniciação ritual é uma passagem deliberada, estruturada e realizada dentro de um contexto específico. Na Wicca Tradicional, ela não representa somente uma experiência subjetiva de transformação: ela estabelece vínculos, introduz o indivíduo em um corpo iniciático, insere-o numa continuidade que existia antes dele e lhe permite participar de mistérios, práticas e ensinamentos transmitidos dentro daquela tradição.

 

Portanto, quando digo que a vida nos inicia inúmeras vezes, utilizo a palavra em um sentido existencial e analógico. Essas experiências podem ensinar muito sobre a natureza da iniciação.

 

Diante disso, podemos nos perguntar por que a vivência de um ritual de iniciação precisa ser tão ansiosamente buscada se as experiências mais profundas que experimentamos estão contidas nas experiências naturais da vida. Ao viver, vamos passando por mortes, mudando de estado e deixando para trás versões de nós mesmos.

 

Por que, então, escolher conscientemente uma nova morte?

 

Há uma passagem da Carga da Deusa que diz, em tradução livre:

 

“Se aquilo que buscas não encontrares dentro de ti, jamais o encontrarás fora de ti.”

 

Essa afirmação pode parecer estranha quando estamos falando justamente de uma tradição iniciática, porque existem, sim, coisas que vêm de fora. O iniciado recebe ensinamentos que não possuía, participa de ritos que não criou, ingressa numa comunidade que existia antes de sua chegada e passa a ocupar um lugar dentro de uma corrente de transmissão.

 

A iniciação nos dá alguma coisa.

 

Mas nenhuma dessas coisas pode fabricar, por si mesma, aquilo que precisa existir dentro do indivíduo para que elas encontrem terreno fértil.

 

Um ritual não cria desejo onde não há desejo. Não cria disciplina onde não existe disposição para desenvolvê-la. Não cria maturidade simplesmente porque alguém recebeu um título. E certamente não produz autoconhecimento por decreto.

 

Assim, uma iniciação será tão profunda e significativa quanto aquele que passa por ela estiver disposto a reconhecer que o que vem de fora precisa encontrar alguma coisa dentro.

 

Alguém pode se perguntar: por que, então, você quis iniciação? Por que não apenas seguiu vivendo?

 

Calma! Não estou dizendo que passar por um ritual de iniciação e por tudo aquilo que o acompanha não tenha benefícios, pois é claro que tem. O que estou dizendo é que esses benefícios serão mais ou menos úteis, ou mesmo vistos como benefícios de fato, de acordo com aquilo que o indivíduo já traz consigo e com aquilo que está disposto a fazer com o que recebe.

 

Não é apenas o rito em si, mas toda a jornada iniciática que mexe com o Ser de uma forma em que tudo se torna um mergulho profundo dentro de si.

 

Isso pode — e provavelmente deverá, se a experiência for verdadeiramente significativa — produzir desconforto. E esse desconforto é aquele que surge quando somos obrigados a olhar para aquilo que preferiríamos não enxergar.

 

Quando uma certeza precisa morrer. Quando percebemos que determinada imagem que construímos sobre nós mesmos não corresponde inteiramente àquilo que somos. Quando nossas limitações se tornam evidentes, quando nossas motivações são questionadas, quando uma fantasia precisa ser abandonada ou quando descobrimos que mudar exige mais de nós do que imaginávamos.

 

Nesse sentido, a jornada iniciática e o desconforto dificilmente podem ser separados.

 

Não é à toa que todos esses conceitos podem ser encontrados numa mesma lâmina do Tarot: ATU XII, O Pendurado.


Carta O Pendurado do tarot Crowley-Harris

 

Gosto particularmente de contemplar O Pendurado do Tarot de Thoth, de Crowley-Harris, dentro desse contexto iniciático. Há desconforto, há sacrifício, há suspensão e há, para mim, uma poderosa imagem de iniciação. Abaixo de sua cabeça, no plano inferior, encontramos um ambiente sombrio, preenchido pela serpente. É um mundo interior, de águas escuras, diante do qual não sabemos antecipadamente o que encontraremos quando finalmente descermos até lá.

 

É lá que talvez encontremos aquilo que procuramos.

 

É lá também que podemos encontrar nossas sombras.

 

A jornada iniciática não consiste em prometer que o mergulho será agradável, mas em ensinar que algumas coisas só podem ser conhecidas quando aceitamos descer. Você está disposto a sofrer para aprender?

 

E novamente: sofrer aqui não significa simplesmente imaginar que a dor possua alguma virtude por si mesma. Significa aceitar o desconforto inevitável de ser transformado. Há aprendizados que custam certezas, ilusões, orgulho e versões muito queridas de nós mesmos.

 

A vida iniciática por meio do trabalho em um Coven é algo que nem todos têm condições reais de administrar. Não digo isso para ser elitista, embora reconheça que possa parecer. A idade, por si só, tampouco é um indicador absoluto de maturidade: ao longo dos anos encontrei adultos mais jovens capazes de enorme seriedade e pessoas muito mais velhas absolutamente despreparadas para aquilo que diziam buscar.

 

Ainda assim, é importante considerar qual bagagem esse Louco está trazendo consigo e, mais do que isso, se está suficientemente preparado para pôr os olhos no fundo da própria bolsa e organizar a bagunça que existe lá dentro.

 

Porque todos chegamos carregando alguma coisa. E nem sempre sabemos exatamente o quê.


Carta O Louco do tarot Crowley-Harris

 

Então eu lhe pergunto sinceramente: você está realmente preparado para se despir dessa forma e pagar o preço necessário por isso?

 

A pergunta é retórica, mas gostaria que você meditasse sobre ela. Qual é aquela verdade dura sobre si mesmo que você rejeita assumir até mesmo em seus pensamentos? Quantos dos seus desejos são realmente seus e não produtos do meio? Se certos eventos não tivessem ocorrido em sua vida, você desejaria as mesmas coisas que deseja e rejeitaria as mesmas coisas que rejeita?

 

Algumas dessas perguntas talvez levem anos para serem respondidas honestamente. O importante é perceber que a disposição para fazê-las já diz muito mais sobre uma busca iniciática do que qualquer fascínio por títulos, graus, segredos ou rituais.

 

Meu objetivo não é desencorajar ninguém, mas esclarecer como a decisão pela iniciação deve ser ponderada com responsabilidade.

 

Não busque uma iniciação por uma medalha de iniciado, por novos amigos, pela promessa de pertencimento ou simplesmente para aprender rituais mágicos. Tudo na Wicca Tradicional está interligado e é interdependente. Se uma peça falta, a engrenagem não funciona.

 

E não imagine que a iniciação seja necessária porque, sem ela, sua vida permanecerá parada. A vida continuará transformando você de qualquer maneira. Ela continuará produzindo perdas, encontros, mortes e renascimentos com ou sem a sua autorização.

 

A diferença é que, ao buscar deliberadamente um caminho iniciático, você escolhe entrar em uma estrutura que dá linguagem, símbolos, transmissão, comunidade e direção a esse processo. Você aceita não apenas mudar, mas participar conscientemente de uma tradição de transformação.

 

Por isso, antes de perguntar quando será iniciado, quem poderá iniciá-lo ou o que encontrará depois de atravessar a porta, talvez exista uma pergunta anterior e muito mais importante.

 

Faça-a a si mesmo quantas vezes forem necessárias.

 

Iniciação pra quê?


Alan Abreu @aleu.jpg

Sumo Sacerdote da Tradição Alexandrina e do Coven Amenti

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