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06

Sobre segredo, mistério e experiência em uma tradição iniciática

Foto do escritor: Alan Abreu
Alan Abreu
14 de ago.
7 min de leitura

Ao longo dos anos, uma das perguntas que mais recebi de buscadores interessados na Wicca Tradicional Alexandrina diz respeito ao segredo.


Por que existe tanto segredo envolvendo a Tradição?


Outras perguntas aparecem como variações da mesma inquietação: por que não realizamos reuniões públicas para que interessados possam participar e nos conhecer? Como saber quem são os membros de um Coven? Por que não mostramos nossos rituais? Por que não falamos mais abertamente sobre aquilo que fazemos e sobre a maneira como fazemos?


Há uma resposta muito simples para parte dessas perguntas: nós juramos fazer isso.


É isso. Sem clickbait, sem enrolação.


Em nossos rituais de iniciação, assumimos compromissos sobre aquilo que nos é confiado. E, sendo o juramento mágico algo que levamos muito a sério — como deveria fazer qualquer praticante de magia em pleno exercício de suas faculdades —, aquilo que juramos guardar não será divulgado simplesmente para satisfazer a curiosidade de quem está fora.


Mas é óbvio que não poderia ser só isso.


Afinal, dizer que guardamos segredo porque juramos guardar segredo explica por que o fazemos, mas não necessariamente explica para que o segredo existe ou qual é o seu lugar dentro de uma tradição iniciática. E antes de responder a isso, acho necessário separar algumas coisas que frequentemente são tratadas como se fossem iguais.


Nem tudo aquilo sobre o que não falamos é secreto; e nem tudo aquilo que podemos revelar precisa necessariamente ser exposto.


Há coisas que são secretas porque pertencem ao material juramentado da Tradição. Há coisas que são privadas porque dizem respeito à intimidade de um Coven ou de seus membros. Há ainda coisas sobre as quais simplesmente escolhemos manter discrição, não porque exista qualquer proibição sobre elas, mas porque nem tudo precisa ser transformado em conteúdo público.


A identidade dos membros de um Coven, por exemplo, não precisa ser tratada como um mistério iniciático. Ela pertence, antes de tudo, às próprias pessoas. Um iniciado pode desejar tornar público seu pertencimento à Wicca; outro pode não querer que familiares, colegas de trabalho ou conhecidos saibam de sua vida religiosa. Essa escolha é dele.


Guardamos os segredos da Tradição porque juramos guardá-los; preservamos a privacidade de nossos membros porque ela pertence a eles.


Da mesma maneira, um Coven pode escolher não publicar fotografias de seu espaço ritual, de seus altares ou de determinados objetos mesmo quando nada na Tradição o obrigaria a esconder essas coisas. Existe uma diferença entre aquilo que não podemos revelar e aquilo que simplesmente não sentimos necessidade de expor. Isso é importante porque uma tradição de mistérios não precisa transformar tudo em segredo para continuar sendo uma tradição de mistérios.


Podemos falar sobre Wicca. Podemos escrever artigos, produzir conteúdo, discutir história, teologia, magia e prática religiosa. Podemos explicar no que acreditamos, apresentar aspectos da nossa maneira de compreender a Craft e responder a muitas das perguntas de quem se aproxima.


Há, porém, uma fronteira. E é nessa fronteira que encontramos não apenas o segredo, mas também o mistério.


Segredo e mistério não são exatamente a mesma coisa. Um segredo é algo que eu poderia lhe contar, mas que, por alguma razão, não devo. Posso conhecer determinada palavra, gesto, ensinamento ou parte de um ritual e estar perfeitamente apto a descrevê-lo; ainda assim, se o recebi sob juramento, não me pertence o direito de fazê-lo.


O mistério é diferente.


Há coisas que talvez continuem não podendo ser plenamente comunicadas mesmo depois que todas as palavras permitidas tenham sido ditas. Podemos descrever uma experiência, explicar seus símbolos, contar aquilo que sentimos e tentar organizar intelectualmente aquilo que aconteceu. Ainda assim, existe uma diferença profunda entre receber uma descrição e atravessar uma experiência.


Foi algo que comecei a compreender no dia da minha própria iniciação.


No mesmo dia em que fiz meu juramento, eu ainda acreditava que o segredo se resumia basicamente a proteger conhecimentos, pessoas e a própria Craft de ameaças externas. Imaginava que, se houvesse algo importante a esconder, o objetivo seria simplesmente impedir que determinadas informações chegassem às mãos erradas.


Eu deveria ter prestado mais atenção à carta que recebi do Coven quando fui aceito como membro. Nela havia uma orientação que, na época, me pareceu estranha:


“A princípio, a necessidade de sigilo em nosso ofício pode parecer confusa, ou até mesmo frustrante, para os alunos — com o tempo, esperamos que você entenda, e até mesmo aprecie, o fato de ter conduzido o seu aprendizado dessa maneira.”

Só depois compreendi melhor o que aquilo significava.


Ainda me lembro com detalhes do dia da minha iniciação de primeiro grau. Era um sábado. Acordei cedo, muito ansioso e aflito. Até aquele momento, conhecia pessoalmente apenas duas pessoas do Coven: a Sumo Sacerdotisa que havia feito minha entrevista de ingresso e um Sacerdote que me acompanhara durante o período pré-iniciático. Eu não sabia exatamente quem encontraria na cerimônia nem como ela aconteceria. O endereço do local só me foi enviado quando já faltavam poucas horas para o ritual.


Recebi uma mensagem dizendo, basicamente:


“Esteja neste endereço daqui a duas horas para a cerimônia de iniciação.”

Peguei minhas coisas e fui.


Em determinado momento daquela noite, minha iniciadora me perguntou, mais ou menos, se eu compreendia que estava diante de uma fronteira entre dois mundos e se tinha coragem de atravessá-la.


Sim!


Foi provavelmente uma das respostas mais sinceras que poderia ter dado naquele momento, porque, quando aquelas palavras foram pronunciadas, percebi que de alguma maneira eu já havia atravessado. O salto de fé já tinha sido dado.


Eu recebi um endereço, peguei minhas coisas e caminhei voluntariamente em direção a algo que não conhecia inteiramente. Quando finalmente me deitei naquela noite, depois de iniciado, compreendi que a iniciação não havia começado no primeiro gesto da cerimônia. Para mim, ela já estava acontecendo muito antes.


O desconhecido havia participado da experiência.


Isso não significa que toda iniciação precise reproduzir exatamente aquelas circunstâncias. O fato de determinada forma de condução ter sido poderosa e significativa para mim não a transforma numa fórmula universal. Cada Coven possui sua própria maneira de trabalhar, dentro dos limites da Tradição, e cada candidato é uma pessoa diferente.


O princípio que extraí daquela experiência é outro: há coisas cuja antecipação pode alterar profundamente a maneira como serão vividas.


Se eu conhecesse antecipadamente cada palavra que ouviria, cada gesto que seria realizado, cada símbolo que encontraria e cada momento da cerimônia, certamente ainda poderia compreender intelectualmente seus significados. Mas compreensão intelectual e experiência iniciática não são a mesma coisa.


Às vezes, não saber permite encontrar algo no momento em que aquilo acontece. O silêncio, nesse sentido, pode criar espaço para a experiência.


Mas existe aqui uma distinção absolutamente necessária.


O desconhecido iniciático não pode ser confundido com ausência de consentimento.


Um candidato não precisa conhecer antecipadamente todos os detalhes de um ritual para consentir livremente em participar dele. Mas precisa saber aquilo que é necessário para estabelecer seus limites e decidir, com autonomia, se deseja estar ali. Há uma diferença enorme entre dizer “não vou antecipar aquilo que você deverá encontrar durante a experiência” e dizer “você não tem o direito de saber com o que está consentindo”.


A primeira afirmação pode pertencer legitimamente a uma tradição iniciática. A segunda pertence ao controle. E talvez essa distinção seja especialmente importante porque o caminho iniciático pode, sim, produzir medo, desconforto e insegurança.


Certa vez, eu disse a uma aluna — hoje uma Sumo Sacerdotisa — que, dentre muitos aspectos, o caminho iniciático é também um caminho de autoconhecimento e autodomínio. Não nos submetemos ao que nos submetemos apenas para possuir a insígnia de Iniciados. Qual seria o valor disso?


Um Coven sério colocará seus membros diante de situações nas quais precisarão olhar para si mesmos, questionar suas certezas, confrontar seus medos, perceber os movimentos do próprio ego, trabalhar suas frustrações e investigar honestamente as razões pelas quais desejam aquilo que desejam.


Muitas pessoas buscam a Wicca, a magia e a bruxaria porque desejam produzir mudanças no mundo ao seu redor. Querem aprender a exercer sua Vontade sobre aquilo que lhes é exterior. Mas que tipo de Vontade podemos exercer quando sequer percebemos aquilo que nos governa por dentro?


É nesse ponto que o silêncio também pode adquirir uma função iniciática.


Quando alguém não recebe antecipadamente todas as respostas, precisa aprender a lidar com a própria expectativa. Quando não sabe exatamente o que encontrará depois da próxima curva, pode descobrir como reage diante do desconhecido. Quando não recebe imediatamente determinada explicação, talvez seja obrigado a observar, experimentar, formular perguntas e construir entendimento. Isso pode ser desconfortável.


Em uma tradição iniciática, aprendemos a não presumir que aquilo que ainda não compreendemos seja desprovido de função. Algumas coisas só revelam plenamente seu sentido depois que adquirimos experiência suficiente para enxergá-las de outra maneira.

Existe uma diferença entre questionar algo depois de experimentá-lo e exigir que todos os seus mistérios sejam desmontados diante de nós antes mesmo de começarmos.


Foi justamente isso que aprendi a apreciar com o tempo.


Hoje compreendo por que determinadas coisas não me foram explicadas quando eu gostaria que fossem. Compreendo por que algumas respostas vieram apenas depois de certas experiências e por que, em alguns casos, recebê-las antecipadamente teria diminuído aquilo que pude descobrir sozinho.


O segredo não existia apenas para que nos sentíssemos especiais, como detentores de algo que “eu sei e você não sabe”. Se fosse apenas isso, seria vazio.


O silêncio pode possuir uma função prática, filosófica e iniciática. Pode preservar a intimidade de um espaço sagrado. Pode proteger aquilo que foi confiado sob juramento. Pode impedir que uma experiência seja reduzida à expectativa produzida por uma descrição prévia. Pode ensinar paciência. Pode exigir atenção. E pode lembrar ao buscador que nem todo conhecimento precisa estar imediatamente disponível simplesmente porque ele deseja possuí-lo.


Ao mesmo tempo, nenhuma dessas justificativas torna o silêncio uma virtude absoluta.


Há momentos de falar e momentos de calar. Há coisas públicas e coisas privadas. Há informações que pertencem ao indivíduo e outras que pertencem à Tradição. Há perguntas que podemos responder livremente e outras diante das quais nosso juramento estabelece um limite.


E há ainda uma última categoria.


Há coisas sobre as quais podemos falar durante horas e, mesmo assim, não conseguiremos entregá-las verdadeiramente a alguém. Porque o mistério não é simplesmente uma informação escondida esperando que alguém finalmente revele a resposta. Alguns mistérios precisam ser vividos.


Talvez seja por isso que o silêncio possa parecer tão frustrante para quem observa uma tradição iniciática do lado de fora. Estamos acostumados a pensar que conhecer alguma coisa significa possuir informações suficientes sobre ela. Se algo existe, queremos uma explicação; se existe uma explicação, queremos acesso a ela. Mas a iniciação trabalha também com outra forma de conhecer.


Aquela que acontece quando finalmente atravessamos.


Se estiver no seu caminho um dia fazê-lo, talvez você também compreenda por que algumas portas não precisam estar escancaradas para que possamos escolher conscientemente atravessá-las.


Até lá, podemos falar sobre muita coisa.


Sobre outras, escolhemos não falar.


Sobre algumas, juramos não falar.


E existem aquelas que, mesmo que tentássemos lhe contar, você só compreenderia depois de atravessar.

 

Alan Abreu @aleu.jpg

Sumo Sacerdote da Tradição Alexandrina e do Coven Amenti

 
 
 

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