Magia e a Expectativa com o Extraordinário

Quando as pessoas descobrem que sou praticante de magia, a reação imediata delas é de surpresa. Na minha vida pessoal e profissional, sou conhecido como um homem bastante racional e lógico, então saber que estudo e pratico magia parece uma estranha contradição.
Essa reação, obviamente, é motivada pela ideia de que magia é igual, em todas as proporções, àquilo que encontramos em obras de fantasia, onde cenas de pessoas voando em vassouras e atirando raios das mãos são retratadas.
O objetivo deste texto não é analisar de onde essa expectativa vem, pois isso já está bem estabelecido. Vamos pular esse debate, que diz respeito mais à grande massa, e nos concentrar naqueles que, de alguma forma, já se envolveram com magia, mas que ainda mantêm alguma expectativa “maravilhosa” em relação a ela.
Como alguém com experiência de liderar Coven por muitos anos, e que recebe frequentemente pedidos de iniciação, fico bastante impressionado com o fato de que, mesmo entre aqueles que já orbitam os meios mágicos, muitos ainda alimentam esperanças fantasiosas quando se fala em magia.
Não me entendam mal: o trabalho mágico, especialmente dentro de um Coven sério, proporcionará, sim, experiências poderosas, profundas, transformadoras e mágicas, mas isso nada tem a ver com aprender a voar sobre uma vassoura. E digo mais: mesmo que isso fosse possível, ainda seria algo muito distante do Verdadeiro Poder que podemos manifestar por meio da prática mágica.
A lógica por trás disso é relativamente simples: nossa experiência imediata do mundo é profundamente condicionada pelos sentidos. São eles que nos permitem perceber aquilo que nos cerca, mas são também limitados pelo próprio aparato que torna essa percepção possível. Enxergamos determinadas frequências de luz, ouvimos determinadas frequências sonoras, percebemos determinadas propriedades das coisas. Isso, entretanto, não significa que a realidade termine exatamente onde termina nossa capacidade de percebê-la.
Cada criatura na Terra estabelece uma percepção do mundo de acordo com seus sentidos. Talvez o mundo não tenha somente as cores que acreditamos que ele possui porque são essas que conseguimos ver; certamente há sons que jamais seremos capazes de ouvir, odores que não podemos perceber e até mesmo sensações mais exóticas do que aquelas que nosso próprio organismo é capaz de experimentar. Ao tomar como referência puramente os nossos cinco sentidos, eliminamos de nossa experiência imediata uma miríade de maravilhas que existem independentemente de sermos capazes de contemplá-las.
É justamente aqui que, para mim, começa uma das partes mais interessantes do pensamento mágico.
Mesmo que eu pudesse soltar fogo das mãos, isso ainda seria a parte menos importante do domínio sobre o elemento, pois aquilo que chamamos de fogo não se esgota na chama que vemos. No fenômeno físico da combustão há combustível, calor e um comburente (normalmente o oxigênio) e podemos compreender perfeitamente esses mecanismos sem que isso encerre aquilo que o fogo pode representar dentro de uma linguagem mágica.
Quando entramos no domínio da analogia, o fogo deixa de ser apenas a chama.
Passamos a procurá-lo também naquilo que irrompe, impulsiona, transforma, consome e põe as coisas em movimento. Podemos reconhecê-lo na violência súbita de um raio, na expansão, no ímpeto e em tantas outras manifestações que, embora não sejam literalmente uma fogueira, compartilham simbolicamente algo de sua natureza. Começamos, assim, a ultrapassar a aparência das coisas para investigar as relações que podemos estabelecer entre elas.
E é possível ir além: se o fogo é o impulso feroz, a energia motriz nas coisas, será que existe fogo dentro da água?
Poderíamos dizer que a chuva, a água em movimento que desce sobre a Terra e a fecunda, é o fogo da água? E, se admitimos uma rede de correspondências entre as coisas, como propõem diferentes correntes do pensamento hermético e ocultista, onde está o fogo da água dentro de nós? Se a água também representa nossos sentimentos, será que o fogo da água em nós são as correntes do inconsciente? Seriam os gatilhos? Então a chuva estaria relacionada aos impulsos inconscientes? Como podemos trabalhar com a chuva — o conhecido — para desbravar as correntes do inconsciente — o desconhecido?
Percebam que, nesse ponto, já estamos muito distantes da pergunta sobre como produzir uma chama com as mãos. E, no entanto, estamos muito mais próximos daquilo que considero verdadeiramente fascinante na magia.
O que é fisicamente impressionante para os cinco sentidos pode nos aprisionar em uma realidade que existe apenas dentro dos parâmetros daquilo que conseguimos perceber imediatamente. Não podemos simplesmente desligá-los, nem seria desejável fazê-lo, mas podemos utilizar tudo aquilo que eles nos permitem conhecer sobre o mundo para projetar nosso pensamento sobre aquilo que eles, sozinhos, não nos permitem alcançar. É por meio do conhecido que tateamos o desconhecido, construindo correspondências, relações, símbolos e formas de operar sobre a realidade.
Isso não significa, entretanto, reduzir a magia a uma metáfora elegante, a um exercício psicológico ou a uma forma poética de contemplar o mundo. Somos bruxos, afinal. Fazemos magia. Realizamos operações com intenção de produzir mudanças, direcionamos forças, estabelecemos relações, manipulamos símbolos e buscamos moldar aspectos da realidade segundo nossa vontade.
O erro está em imaginar que a validade dessa prática precise ser demonstrada por uma violação espetacular das regularidades do mundo físico.
Talvez seja justamente o contrário.
A capacidade de compreender relações que antes nos eram invisíveis, de atuar conscientemente sobre elas e, por meio dessa atuação, provocar transformações em nós mesmos e no mundo que habitamos é infinitamente mais interessante do que qualquer espetáculo que pudesse ser apresentado diante dos olhos. A magia deixa então de ser uma tentativa de imitar aquilo que a fantasia nos ensinou a desejar e passa a ser uma forma de penetrar mais profundamente na realidade.
Se essas ideias não te empolgam mais do que apenas querer voar sobre uma vassoura, talvez o seu lugar não seja conosco.
Novamente, não me entendam mal. Somos bruxos, afinal! Utilizamos a magia, sim, para moldar o universo à nossa vontade, mas nada disso é verdadeiramente possível sem que a gente ligue os circuitos que conectam todas as coisas e sem a compreensão daquilo que está por trás de tudo — inclusive daquilo que os sentidos escondem de nós.
E são justamente os frutos dessa prática que constituem, para mim, aquilo que há de mais maravilhoso e espetacular na magia.
Diante deles, a habilidade de voar sobre uma vassoura ou transformar um homem em sapo jamais poderia se igualar.
Alan Abreu @aleu.jpg
Sumo Sacerdote da Tradição Alexandrina e do Coven Amenti








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